bservar e ouvir, e
aprender com aquilo que fazia. Aposto que é por isso que
Lorde Mormont te requisitou, Jon. Que outra coisa poderia
ser? Quer prepará-lo para o comando 1 .
Jon foi apanhado de surpresa. Era verdade, Lorde Eddard
fizera com frequência com que Robb participasse de seus
conselhos em Winterfell. Poderia Sam ter razão? Mesmo um
bastardo podia ascender a grande altura na Patrulha da
Noite, dizia-se.
- Nunca pedi isto - disse teimosamente.
- Nenhum de nós está aqui por ter pedido - relembrou-lhe
Sam. E de súbito Jon Snow sentiu-se envergonhado.
Covarde ou não, Samwell Tarly encontrara a coragem de
enfrentar seu destino como um homem. Na Muralha, um
homem só obtém aqui lo que ganha, dissera Benjen
Stark na última noite em que Jon o vira vivo. Não é
nenhum patrulhei ro.Jon, não passa de um rapaz
verde ainda cheirando a verão. Ouvira dizer que os
bastardos cresciam mais depressa que as outras crianças; na
Muralha, ou se crescia ou se morria.
Jon soltou um profundo suspiro.
- Tem razão. Estava agindo como uma criança.
- Então ficará e dirá as suas palavras comigo?
- Os velhos deuses estão à nossa espera - obrigou-se a sorrir.
Partiram ao fim da tarde. A Muralha não tinha portões
propriamente ditos, nem ali em Castelo Negro nem em ponto
algum das suas trezentas milhas. Levaram os cavalos por um
túnel estreito cortado no gelo, com paredes frias e escuras
apertando-se à volta deles enquanto a passagem se retorcia e
curvava. Três vezes viram o caminho bloqueado por grades
de ferro, e tiveram que parar enquanto Bowen Marsh pegava
as chaves e destrancava as maciças correntes que as
seguravam. Jon conseguia sentir o vasto peso que se
encontrava sobre sua cabeça enquanto esperava atrás do
Senhor Intendente. O ar estava mais frio que uma tumba, e
mais parado também. Sentiu um estranho alívio quando
voltaram a emergir para a luz da tarde do lado norte da
Muralha.
Sam piscou com o súbito clarão e olhou em volta com
apreensão.
- Os selvagens... eles não... eles nunca se atreveriam a
aproximar-se tanto da Muralha, não?
- Nunca o fizeram - Jon subiu na sela. Depois de Bowen
Marsh e sua escolta de patrulheiros terem montado, Jon pôs
dois dedos na boca e assobiou. Fantasma saiu aos saltos do
túnel.
O cavalo do Senhor Intendente relinchou e afastou-se do lobo
selvagem.
- Pretende trazer esse animal?
- Sim, senhor - disse Jon. A cabeça de Fantasma ergueu-se,
Parecia saborear o ar. Num piscar de olhos tinha partido,
correndo através do largo campo coberto de ervas daninhas
até desaparecer entre as árvores.
Uma vez na floresta, encontraram-se num mundo diferente.
Jon caçara frequentemente com o pai, Jory e o irmão Robb.
Conhecia a Mata de Lobos que rodeava Winterfell tão bem
como qualquer outro homem. A floresta assombrada era
muito parecida, mas a sensação que projetava era muito
diferente.
Talvez tudo estivesse no conhecimento. Tinham cavalgado
até depois do fim do mundo; de certa forma, isso mudava
tudo. Cada sombra parecia mais escura, cada som, mais
agourento. As árvores apertavam-se e afastavam a luz do sol
poente. Uma fina crosta de neve fendia-se sob os cascos dos
cavalos, com um som que fazia lembrar o quebrar de ossos.
Quando o vento fazia restolhar as folhas, era como se um
dedo gelado desenhasse um percurso ao longo da espinha de
Jon. A Muralha estava nas suas costas, e só os deuses sabiam
o que tinham à frente.
O sol afundava-se atrás das árvores quando alcançaram seu
destino, uma pequena clareira nas profundezas da floresta,
onde nove represeiros cresciam num círculo grosseiro. Jon
prendeu a respiração e viu Sam Tarly olhar fixamente.
Mesmo na Mata de Lobos, nunca se viam mais de duas ou três
das árvores brancas crescerem juntas; um grupo de nove era
inaudito. O chão da floresta encontrava-se atapetado de
folhas caídas, vermelhas como sangue no topo, negras de
podridão por baixo. Os grandes troncos lisos eram pálidos
como ossos, e nove caras olhavam para dentro. A seiva seca
que se encrostou nos olhos era vermelha e dura como rubi.
Bowen Marsh ordenou-lhes que deixassem os cavalos fora do
círculo.
- Este é um lugar sagrado, não o profanaremos.
Quando entraram no bosque, Samwell Tarly virou-se
lentamente, olhando para uma das caras de cada vez. Não
havia duas iguais.
- Eles nos observam - sussurrou. - Os deuses antigos.
- Sim - Jon ajoelhou, e Sam ajoelhou a seu lado.
Proferiram as palavras em conjunto, enquanto a última luz
desaparecia a oeste e o dia cinzento se transformava em noite
negra.
- Escutem as minhas palavras e testemunhem os meus votos -
recitaram, com as vozes enchendo o bosque penumbroso. - A
noite chega, e agora começa a minha vigia. Não terminará até
minha morte. Não tomarei esposa, não possuirei terras, não
gerarei filhos. Não usarei coroas e não conquistarei glórias.
Viverei e morrerei no meu posto. Sou a espada na escuridão.
Sou o vigilante nas muralhas. Sou o fogo que arde contra o
frio, a luz que traz consigo a alvorada, a trombeta que acorda
os que dormem, o escudo que defende os rein